Nestes tempos de tantas incertezas, uma coisa podemos afirmar: quem souber tirar as lições corretas desse período sairá dessa crise muito melhor do que como entrou.

Pensando nisso, elenquei as sete principais lições que aprendi.

A primeira delas, sem dúvida, foi com relação ao dinheiro. Nunca foi tão verdadeira a afirmação de especialistas em finanças no que diz respeito à reserva de emergência. Quem tinha a reserva recomendada, ou seja, seis vezes o seu custo de vida mensal, teve uma certa tranquilidade no quesito “dinheiro”. Mas quem não tinha, passou e/ou ainda está passando por sérias dificuldades.Então, vamos à lição número 1: se o que você ganha não lhe permite ter um montante reservado, de forma intocável (somente para emergências mesmo!), igual a seis vezes o seu custo de vida mensal, é sinal de que você está vivendo um padrão de vida que não tem condições de manter. Saídas? Reduza seu padrão de vida de modo que seus gastos mensais essenciais caibam em 70% do que você ganha e os 30% restantes sejam investidos para reserva de emergência e metas de curto, médio e longo prazos; ou aumente sua receita para ter o mesmo procedimento: 70% para gastos essenciais e 30% para investimentos, mantendo o padrão de vida atual.

Lição número 2: absolutamente nada na vida é estável. Nada! Muito menos a carreira. Vamos precisar arrumar formas criativas para nos reinventarmos. O jeito como trabalhávamos antes não dará mais conta para o mundo dos negócios pós-pandemia. Otimização de custos, processos e atividades serão imprescindíveis ao profissional, seja ele autônomo, informal, empresário ou funcionário. Sem medo de errar muito, posso garantir que as competências mais exigidas estarão relacionadas à empatia, resiliência, administração, liderança pessoal, superação, produtividade e comunicação.

Lição número 3: nunca tivemos tanto tempo disponível e o desperdiçamos tanto! De repente nos demos conta de que a desculpa “não tenho tempo” foi jogada de vez no lixo. Com o tempo à disposição, não estamos fazendo as melhores escolhas. Com apenas um celular e acesso à Internet, é possível fazer qualquer curso à distância, participar de grupos religiosos ou aprender mais sobre espiritualidade, exercitar o corpo gratuitamente com os recursos disponíveis em nossas casas, dedicar aos projetos iniciados e não concluídos, brincar com filhos, netos, sobrinhos usando a tecnologia, fazer aquela ligação para a/o amiga/o ou parente que estávamos em falta, organizar a casa, ajudar o próximo (vizinho, morador de rua, engajar em projetos sociais etc) e uma infinidade de coisas que dizíamos querer fazer, mas não tínhamos tempo. Fizemos alguma coisa ou nos deixamos paralisar pelo medo excessivo ou até mesmo pela preguiça? Continuamos nos boicotando ou estamos conseguindo aproveitar bem o tempo que agora temos, fazendo o que realmente é importante para nós?

Lição número 4: o que mais temos feito é entrar em contato com a gente mesma/o e com quem mora conosco. Numa situação onde a emoção predominante é o medo, com a consequente manifestação do instinto de sobrevivência, temos a oportunidade de demonstrar o que há de melhor em nós, mas também podemos enxergar o que há de pior e que, por muitas vezes, insistíamos em não ver ou esconder embaixo do tapete. Esses são aspectos importantes para o processo de autoconhecimento, pois assim é possível criar mecanismos para fortalecer nossos pontos fortes, nossas qualidades e melhorar nossos pontos fracos, nossos defeitos. Um dos mecanismos que criei para manter o meu equilíbrio foi optar por não discutir a politização da crise. Qualquer tentativa de outra pessoa tem a minha recusa imediata. A pandemia é real, grave e extremamente perigosa. Ponto. E me pergunto diariamente, mais de uma vez por dia, o que eu posso fazer para tornar esse período um pouco menos sofrido.

Lição número 5: o isolamento proporciona identificar quem realmente importa e para quem eu sou importante. Recebo quase que diariamente ligação do meu pai, que começa com a seguinte frase: “Oi, meu amor!” e termina com “Eu te amo!”. Minhas terças e quintas-feiras são recheadas de pipocas, chocolates e desenhos infantis. Meus netos vêm para quebrar o total isolamento e deixar a mamãe trabalhar melhor em home-office. Com todos os cuidados recomendados, entre água sanitária, álcool e máscaras, vamos rindo, brincando e tornando esses dias menos pesados. Preciso dizer mais alguma coisa?

Lição número 6: todos temos a capacidade de recomeçar em qualquer aspecto da nossa vida. Fiz as seguintes reflexões: se eu precisasse recomeçar do zero hoje em uma determinada área da minha vida, teria forças, coragem e disposição? A resposta foi SIM! E assim será… Os recomeços são importantes para nossa autoconfiança, nosso autoconceito e nossa autoestima. Provar para nós mesmas/os que somos capazes e que estamos determinadas/os é algo espetacular de experimentar. Vivi vários recomeços e não será a idade que vai me impedir de recomeçar quantas vezes forem necessárias.

Lição número 7: quando eu poderia imaginar sentir uma imensa felicidade em ir até a esquina ou caminhar até a praia? Cheguei à conclusão de que tenho muito mais do que realmente preciso. Já praticava a gratidão antes e agora esse sentimento é ainda mais forte. Agradeço diariamente por acordar bem, sem sintomas de doenças. Por ter as condições mínimas necessárias para me manter em isolamento, enquanto outros estão beirando o desespero, pois não podem trabalhar para ter o pão de cada dia. Por meu pai de 91 anos estar em segurança, sendo cuidado com tanto zelo por minha irmã mais velha. Por meus filhos e netos serem saudáveis e não estarem no grupo de risco. Por toda a minha família estar em certa segurança, em suas casas. Por meus verdadeiros amigos se preocuparem comigo e me ajudarem a passar por essa fase (a recíproca é verdadeira!). Por ter condições de escrever essa série de “Lições de uma quarentena” e dividir com vocês minhas angústias, tristezas, alegrias e satisfações. Obrigada, meu Deus, por mais essa grande lição.